Livro investiga a dinâmica da economia do narcotráfico

Não é preciso ter assistido ao seriado “Breaking Bad” para saber que o narcotráfico se transformou em uma grande indústria, com uma organização complexa e ramificações planetárias. Tom Wainwright, correspondente na América Latina da revista “The Economist”, conheceu de perto essa realidade e decidiu investigar a dinâmica econômica de um negócio bilionário: esteve em plantações de coca nos campos andinos, visitou prisões na América Central, conversou com traficantes no Colorado e vasculhou a web profunda. O resultado é o livro “Narconomics – How to run a drug cartel” [“Narconomics – Como gerir um cartel de drogas”, Public Affairs, 288 pgs. US$ 17.30], ainda inédito no Brasil. O autor analisa as características estruturantes do mercado das drogas: o controle da matéria-prima e dos produtores primários, necessário para que os cartéis possam manter os preços estáveis; um sistema de franquias, que empodera empresários locais com armas e outras vantagens derivadas de uma rede de proteção, em troca do compromisso com determinadas regras de conduta e repartição de lucros; e o profissionalismo das equipes, com mão-de-obra qualificada, não somente para garantir a qualidade do produto final, mas também para manter a eficiência continuada das vendas no varejo. 

 

NarconomicsEssas características, afirma Wainwright, podem ser comparadas às de redes legais globalizadas como Wal-Mart, McDonald’s e Coca-Cola. Mais que isso: ele sugere que os grandes traficantes se inspiraram diretamente nas estratégias dessas empresas para conquistar e fidelizar novos consumidores, em um negócio global altamente organizado, estabelecendo-se assim um paralelo entre negócios legais e ilegais. O cartel de Los Zetas, por exemplo, adotou claramente um modelo de franquias para se expandir no México.

 

Em 1998 a ONU promoveu uma grande conferência mundial sobre o tema, com o slogan “Um mundo sem drogas é possível”. De lá para cá, o consumo de maconha e cocaína dobrou, e o de heroína triplicou, sem falar no surgimento e difusão de novas drogas sintéticas. O diagnóstico de Wainwright é que, apesar dos milhões de dólares gastos em políticas de repressão ao crime organizado, e após centenas de milhares de vidas perdidas, o mundo vem fracassando na guerra contra as drogas, o que é óbvio. Outra conclusão evidente é que, enquanto os consumidores continuarem dispostos a pagar para consumir drogas ilegais, haverá um mercado do crime disposto a oferecê-las.

 

Wainwright demonstra como funciona a cadeia de valor que faz um quilo de cocaína ser comprado por menos de 3 mil dólares na Colômbia, ser revendido por mais de 20 mil dólares a distribuidores no território americano e alcançar 80 mil dólares na ponta final do consumo. Na composição do preço da cocaína, aliás, a folha de coca tem um peso irrisório – menos de 1% do preço final; por isso, investir na erradicação de arbustos de coca nos Andes é tão eficiente quanto enxugar gelo. A cada 1 milhão de dólares investidos nisso, o impacto no consumo nos Estados Unidos é de menos de 10 quilos. De maneira similar, uma carga de 100 toneladas de maconha pode valer 10 milhões de dólares no México ou na Colômbia e 500 milhões de dólares nos Estados Unidos. Não é surpreendente que os maiores lucros vão para quem menos se arrisca: os atacadistas enriquecem, enquanto o traficante da esquina é quem se dá mal quando alguma coisa dá errado.

 

O que Wainwright propõe é uma nova abordagem: combater o tráfico como se combate uma grande corporação, por meio de uma estratégia econômica de contenção. Sua premissa é que só existem duas maneiras de o narcotráfico acabar: pelo lado da demanda – os consumidores deixarem de comprar, o que parece irreal – ou pelo lado da oferta – não com mecanismos proibitivos, mas com a criação de alternativas legais e controladas de mercado. Ou seja, com a legalização: “O uso de drogas ilegais nos países ricos é uma vergonha (…). Enquanto as drogas forem ilegais, qualquer pessoa que as compre terá sangue nas mãos”, afirma. “A melhor solução seria eliminar totalmente a demanda por drogas, mas até que isso não aconteça, a regulação e a prevenção são a melhor resposta. (…) Não posso imaginar que nenhuma droga vendida pela máfia seja mais segura do que pelo governo". Por outro lado, Wainwright admite que quem compra cocaína está pagando os salários de pessoas na América Latina que decapitam crianças, que sequestram e queimam pessoas vivas, e que os cartéis usam o assassinato e a tortura como parte de seu modelo de negócio: "É uma incômoda certeza, não uma possibilidade, mas uma certeza, que comprar um grama de cocaína na Europa ajuda a pagar para alguém ser torturado até a morte do outro lado do Atlântico. (…) Se o problema fosse visto como um mercado a conter e não como uma batalha a lutar, os resultados seriam melhores”.

 

Drogas são um tema sobre o qual todo mundo tem alguma opinião, e geralmente o debate não sai do lugar por confundir aspectos legais e morais incompatíveis.  A opinião de Wainwright pelo menos é bem fundamentada na sua experiência como jornalista especializado no tema, o que não significa que esteja correta. O problema não está na boa ou má consciência dos usuários, mas nas consequências concretas da disseminação do consumo e nos custos humanos (os problemas de saúde pública, por exemplo, tema que o autor apenas arranha). A legalização pode fazer sentido do ponto de vista estritamente econômico, já que prejudicará os cartéis do tráfico, transferindo receitas do crime organizado para a economia formal e regulada. Mas há muitas outras questões em jogo, e o preço de se fazer um experimento social dessa natureza pode ser alto.

 

De qualquer forma “Narconomics” é um livro meritório em seu esforço de apresentar e sistematizar a economia do narcotráfico e refletir sobre maneiras mais eficientes de combatê-lo. Uma de suas teses – que se estende a outros setores da economia, naturalmente – é que as forças do mercado são muito mais poderosas que qualquer política governamental  (especialmente uma política equivocada do ponto de vista econômico, já que, no caso das drogas, a redução da oferta aumenta os preços, mas não diminui o consumo).  Ou seja, os economistas podem ter mais a contribuir na guerra ao narcotráfico que os policiais e os políticos.

 

Fonte: G1

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